Cadernos novos, caminhos velhos.
Quem, em criança, nunca sentiu aquele entusiasmo em ir comprar o material escolar novo para o regresso às aulas? Aquele cheirinho a novo ao folhear um caderno acabado de comprar, organizar o estojo com os lápis e as canetas novas já identificadas com etiquetas manuscritas, que também tinham a função de rebobinadoras de cassetes… (desculpem-me os que nasceram nos anos 90 se não estão a entender a referência)
Lembro com nostalgia, enquanto escrevo, de preparar a mochila e cheio de alegria, já pronto para sair de casa, surgia uma voz feminina que dizia "leva o casaquinho, à noite vais ter frio!". Sob protesto, lá o tinha que levar. Afinal, quem manda, não é? Com as tardes mais curtas e amplitudes térmicas típicas da chegada do outono, dava razão à minha mãe, mas guardava-a para mim. Orgulhoso, não dava “parte fraca”.
Pelo caminho de regresso a casa, à procura de conforto no tal “casaquinho” e na mochila encostada nas costas para combater o frio inesperado, via árvores despidas e as ruas enfeitadas com um manto de folhas de cores amarelas, vermelhas e acastanhadas. Nasci na cidade do Porto e garanto-vos: o outono no Porto é de uma beleza e de um romantismo indescritível. Oh meu Porto… que saudades…
Hoje em dia, pouco disso vejo nas crianças. Infelizmente, a tecnologia não veio só para tornar “o mundo melhor”. Agarradas ao telemóvel, andam de cabeça baixa em vez de rasgarem as calças naquele jogo de bola de fim de tarde.
As ruas… em alguns locais já não estão com o manto de folhas. Em vez disso, estão em obras, com máquinas pesadas a circular, as crianças com dificuldade em se desviar delas e os pais preocupados.
Podemos comprovar isso na escola nº 6 do Barreiro, onde, em vez da beleza de outono, tem um estaleiro. A somar, a escola tem uma lona a cobrir o telhado. Sim, uma lona. Mas, o nosso presidente afirma que "o Barreiro tem as escolas todas renovadas (...) pois o Barreiro é a melhor terra do mundo". Concordo com a última parte, apaixonei-me pelo Barreiro, acolheu-me, fiz família, deu-me um propósito.
Aquela típica pressa de arranjar tudo em altura de eleições para “o freguês ver”, merece melhor planeamento. Principalmente nas escolas! É a segurança das crianças em causa! Desvios de circulação, pessoas nervosas de manhã no trânsito, paragens de autocarro provisórias sem cobertura e sem um banco para os idosos, escolas sem telhado… trapalhadas atrás de trapalhadas e os buracos no mesmo sítio.
Óbvio que as obras são necessárias, as cidades são um organismo vivo, que evolui e adapta-se (ou deveria) aos tempos. Mas com planeamento adequado sem atrapalhar a qualidade de vida dos cidadãos.
Apesar de tudo, setembro tem sempre algo de mágico, de recomeço, de renascer.
E os leitores, como recordam o vosso regresso às aulas e o vosso setembro?
Rubrica semanal: Terças com Ricardo Lapa