Ele foi um herói.
Fez ontem, dia 8 de setembro, dois anos que partiu uma das pessoas mais importantes da minha vida. Uns dizem que foi para “outro patamar”, outros falam em “estado superior” ou até há quem diga que ele ainda “anda aqui”.
Estou certo de que “anda aqui” nas minhas memórias e no meu coração, pelo menos. Dou por mim a ter expressões dele, eu sempre ficava chateado quando ele as tinha comigo. Coisas como “não trabalho para a companhia da electricidade” sempre que deixava um candeeiro aceso. Ou a famosa “debaixo do meu teto quem manda sou eu”. Outras vezes dou conta que faço o mesmo tipo de piadas que ele fazia ou dizia à minha mãe; penso sempre “… pareço o meu pai…”
Sinto-o todos os dias. Seja no relógio dele que o uso com orgulho entre outros objetos pessoais ou nos livros maravilhosos que me deixou, muitos editados antes do meu nascimento, que os devoro diariamente.
Foi um homem que nasceu numa vila longe da cidade, sem pai presente e instituído num colégio interno. Quando ousou perguntar à minha avó quem era o seu pai, levou um estalo na cara. Outros tempos… Vila Marim, Mesão Frio nos anos 40 do século XX. Apesar das dificuldades, estudou, soube estar na vida, lutou e trabalhou sempre, mesmo na reforma não conseguia parar. Providenciou sempre para a família, nunca fomos ricos mas nunca nos faltou nada. Quando ele tinha a idade que tenho agora, já tinha alcançado mais do que eu, que tive a orientação que ele não teve. Uma família, foi empreendedor, trabalhou em Angola… tudo para que não faltasse nada à sua família.
Intitulo-o de herói não apenas pelas razões acima mas principalmente pela seguinte. Quando a doença apareceu, tomou uma decisão no silêncio. A minha mãe é doente de AVC desde há 12 anos e dada a falta de mobilidade dela, sentiu que devia cuidar dela acima de tudo. Foi a maior prova de amor que alguém pode dar a outra. Escondeu a doença, sofreu em silêncio e deu prioridade à sua companheira de vida ao cuidar dela até onde lhe foi permitido. Nunca contou a ninguém, nem a ela nem aos filhos (tenho duas irmãs) até a doença dar de si e em 5 semanas ele partiu.
Mesmo quase no leito do eterno descanso, deu-nos uma lição sobre o que é o amor.
Foi e será sempre o meu Herói, a quem eu chamo Pai e todos os dias o sinto presente.
E vocês, já falaram com o vosso pai, hoje?
Rubrica semanal: Terças com Ricardo Lapa