Há nomes oficiais. E depois há os que ficam.

Há nomes oficiais. E depois há os que ficam.

Nos últimos dias, o novo nome do Fórum Barreiro anda na praça com as mais diversas opiniões: Barra Shopping.

Pesquisei comunicados, notícias, redes sociais e até notas da Sonae sobre a suposta inspiração e não encontrei nada que confirme que o nome seja uma homenagem à Barra-a-Barra, aquele pedaço histórico do Lavradio, das marinhas e da praia fluvial.

A explicação oficial resume-se a isto: um nome simples, direto, fácil de adotar.

Mas é curioso como muita gente ligou imediatamente “Barra” à Barra-a-Barra.

Será porque os nomes antigos têm mais alma do que qualquer branding moderno?

E isso fez-me pensar — como também noutras cidades acontece — na forma como o Barreiro vive os seus lugares e como se apega aos nomes que lhes pertencem.

Quando vim viver para o Barreiro, tive vários momentos de humor involuntário relacionados com os nomes dos locais.

Certo dia, fui às compras com o avô da minha noiva que me disse, com o seu jeito de capitão: “Vamos ao Feira Nova.”

Procurei no GPS… e nada de Feira Nova.

Lá fui seguindo as direções dele e da minha noiva e, quando ele diz “chegámos”, olho para a fachada e leio: Pingo Doce.

Ela sorriu e disse: “Isto é o Feira Nova”, e contou-me a história de como era antigamente — o movimento, os cinemas — e como o nome ficou tão enraizado que, mesmo depois de se tornar Pingo Doce, ainda hoje ali é o ‘Feira Nova’.

E se eu disser “vamos ao Pingo Doce”, respondem de imediato:
“Não, o Pingo Doce é pequeno, vamos antes ao Feira Nova.”

Foi aí que percebi uma regra do Barreiro: os nomes mudam, mas o povo decide quando é que a mudança pega.

Outro episódio foi com o famoso Alfredo da Silva, esse clássico ponto de encontro. Um amigo disse-me: “Estou nas esplanadas ao pé do Alfredo da Silva.”

Eu, que na minha cabeça associava Alfredo da Silva ao mausoléu da Quimiparque, imaginei esplanadas ao lado do túmulo — e, claro, não batia certo.

Só mais tarde percebi que a estátua do Alfredo da Silva é no Parque Catarina Eufémia e, então, entendi o que significa “estar ao pé do Alfredo da Silva”.

É isto — entre muitas outras coisas — de que eu gosto no Barreiro: a cidade tem um dicionário próprio, construído não por placas, mas pelas ligações que os locais têm com os seus lugares.

Por isso, agora que o Fórum se chama Barra Shopping, pergunto-me: quando é que o nome vai realmente pegar?

Pelo que leio nas redes sociais, o Barreiro tem uma memória muito mais forte do que qualquer rebranding.

Podem mudar o nome e colocar uma placa colorida mas o povo é que vai decidir quando é que tudo muda de nome.

E enquanto assim for, o Barreiro continuará a ser uma cidade única, onde os nomes contam histórias que sobrevivem a qualquer mudança.

E vocês, ainda dizem “vamos ao Fórum”?

Rubrica semanal: Terças com Ricardo Lapa

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