Olhar vazio e sem esperança.
Há um lado escondido (ou esquecido) na sombra da nossa cidade. Não só na nossa, claro, mas é no Barreiro que tenho actuado nesse lado escuro e observo olhares envergonhados de quem luta para colocar comida na mesa da sua casa. Sou voluntário numa Associação de recolha e distribuição de alimentos e tenho ficado pasmado com a quantidade de utentes que recorrem a esta organização para sobreviver.
Não somos uma cidade muito grande, cerca de 80 mil habitantes. Poderíamos pensar que aqui não temos este tipo que problemas sociais, como a fome ou pessoas sem abrigo. Facto é que existem e vejo isso todas as semanas com os meus próprios olhos.
Vejo todo o tipo de pessoas, desde o reformado que mal tem dinheiro para medicação e tem que escolher entre ter cuidados médicos ou comer, à mãe que chegou de um trabalho longe da sua casa e que por muitas horas que faça não tem capacidade monetária para comprar comida que chegue para os seu filhos.
Durante as ações de voluntariado que participo, houve um episódio que não me sai da cabeça e de cada vez que me vem à memória dá-me uma dor no estômago e um aperto no coração.
Uma mãe com um bebé ao colo que não tinha mais de 12 meses, passou a fila de pessoas à espera do seu cabaz para se dirigir a mim. Com ar cansado e olhos vermelhos de exaustão ou de choro, fez-me sinal a pedir permissão para falar comigo e com uma voz muito baixinha e envergonhada disse “… senhor, queria saber se posso inscrever-me como utente… não como há cinco dias para poder dar de comer aos meus filhos…”. Sem me olhar nos olhos, fez este pedido com medo que alguém pudesse ouvir e com um olhar vazio de quem já não tem esperança. Encaminhei-a para a coordenadora para se poder inscrever e enquanto falava com a ela preparei um cabaz (pois só iria ter um cabaz noutro dia que não aquele), para se poder aguentar até ter o seu cabaz. Quando, depois de se inscrever, lhe entreguei o cabaz, já me conseguiu olhar nos olhos e sorriu com um olhar que gritava “obrigado” sem conseguir encontrar palavras para agradecer.
Não precisou falar, aquele olhar foi um agradecimento pela lufada de ar fresco com que se deparou, naquele momento. Talvez houvesse esperança…
Poderiam pensar os leitores que só os desalojados e os que não querem trabalhar recorrem a esta ajuda. Enganam-se se pensam isso. Como disse há pouco, vejo todo o tipo de gente, caras que não me são estranhas de quando passeio pelas ruas, pessoas bem vestidas de quem regressa do seu trabalho.
Serão as rendas a subir a um ritmo alucinante, os trabalhos precários e de remuneração baixa, a contribuir para este problema? A verdade é que, de um modo geral, os ordenados são baixos, metade são impostos, pagamos segurança social e se não são estas Organizações sem fins lucrativos a fazer serviço de voluntariado estas pessoas não tinham nada…
É triste pensar que isto existe na nossa cidade e até poderão ser nossos vizinhos, pessoas carenciadas e sem ter o que comer ou sem poder dar de comer aos seus filhos. Isto não é novo, não é de agora. É um problema social que nunca foi resolvido e enquanto autarcas devemos lutar por políticas mais eficientes para estas questões sociais. Pois as soluções não passam só pela caridade.
Um especial agradecimento a todas as pessoas que fazem voluntariado e lutam por estas causas sociais, e para as organizações que têm como missão fazer o que os senhores do poder se recusam a fazer.
Por fim, como é costume, deixo uma questão no ar para deixarem vosso contributo se assim o quiserem ou apenas para vossa reflexão:
Como é que numa cidade “que se projeta no futuro”, que faz empreendimentos de luxo (e outros completamente desnecessários) um problema tão básico — ter o que comer — ainda é uma realidade?
Rubrica semanal: Terças com Ricardo Lapa