Quando o protesto ultrapassa o limite.

Quando o protesto ultrapassa o limite.

No dia 11 de dezembro de 2025, Portugal viveu um dos momentos mais significativos de contestação social dos últimos anos: a primeira greve geral em mais de uma década, convocada pelas duas grandes confederações sindicais, CGTP e UGT, contra o chamado pacote laboral apresentado pelo Governo.

Ainda em fase de proposta, o povo saiu à rua para manifestar o seu desagrado — um direito legítimo de todos os cidadãos num Estado democrático.

O impacto fez-se sentir de forma clara: escolas, transportes públicos e serviços de saúde foram afetados, numa demonstração de força destinada a fazer ouvir a voz do descontentamento.

A causa principal do protesto é nobre. Estão em causa direitos fundamentais dos trabalhadores, nomeadamente matérias sensíveis como a parentalidade e a proteção das mães trabalhadoras.

A greve e a manifestação são direitos que respeito. São expressões democráticas essenciais. Mas quando se ultrapassam limites, quando o protesto degenera em desacatos e violência, a causa nobre fica completamente desvirtuada.

A partir desse momento, deixa-se de falar de cidadania ativa e passa-se para o aproveitamento oportunista de movimentos de massas, transformando uma luta legítima num palco de desordem que o país inteiro assistiu em direto.

Quando o grito substitui o argumento, a violência substitui o diálogo e a desordem pública toma o lugar do protesto legítimo, a razão perde-se por completo.

Depois da marcha até à Assembleia da República, a anarquia instalou-se. Arremessos de garrafas contra a polícia, fogos ateados em caixotes do lixo, indivíduos de rosto tapado a protagonizar comportamentos obscenos. Um verdadeiro festival de desordem, sem qualquer sentido cívico ou político.

Pergunto: para quê esta violência? O que se ganhou com isto? Mais insegurança nas ruas? Mais descrédito sobre a própria causa?

Parabéns aos “camaradas” que dizem lutar por direitos sociais mas acabam a destruir a credibilidade de um protesto legítimo com atitudes irresponsáveis e infantis. É esta a forma de “diálogo” que parte da esquerda quer normalizar?

A democracia não se alimenta de gritos nem de violência. Alimenta-se de debate, de capacidade de ceder quando necessário, de convivência com diferentes correntes políticas, de respeito pela lei e pelo espaço público. Esses são verdadeiros fundamentos democráticos.

No final, em vez de uma greve séria e de um protesto claro, o país assistiu a uma desordem tal que muitos cidadãos ficaram sem perceber qual era, afinal, a causa em discussão.

E o mais grave: não só se perdeu a razão, como se traiu a própria luta que dizia defender.

Rubrica semanal: Terças com Ricardo Lapa

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