Quando o riso se torna sintoma.

Quando o riso se torna sintoma.

Lembro-me de ser miúdo quando ouvi pela primeira vez Ena Pá 2000. Eram temas proibidos, ouvia admirado e pensava “como era possível, ele diz asneiras na música!”. Sempre ria às gargalhadas junto com os meus amigos de pré-adolescência, no meu walkman a tocar uma cassete gravada por um amigo. Os meus pais nunca me iriam deixar comprar um disco dos Ena pá.

Composição musical incrível, muitos arranjos de vozes e instrumentos variados, mas as letras… Quem, nos anos 80/90 não cantarolava “Marilú… Marilú..” ou “Vida de cão… a caminhar para o caixão” ?

Manuel Vieira era um Rei. Dizia o que queria, fazia sátira com tudo (nos tempos em que ainda era possível brincar com qualquer tema sem imediatamente ser acusado disto ou daquilo). Já imaginaram hoje escrever “…nunca deixarei de sentir ponta por ti” numa música ou dar um nome a um álbum de ”Opus Gay” sem metade do país exigir explicações?

Mas o facto é que continua a ser um Rei. Um humorista que tem um palco do tamanho de um país para fazer a sua sátira e com humor dizer as maiores verdades sobre a postura de muitos políticos. A diferença é que em vez de atuar num estúdio, atua no campo de batalha no meio do tiroteio mediático e político.

E digo isto, porque apresenta-se como um "desgovernado", como um candidato que promete mundos e fundos e no final é mais um a fazer o seu “espetáculo”.

Reparem como nas entrevistas, quando confrontado com certas perguntas, responde “é melhor não lhe dizer, pois eu sou muito mentiroso” (entrevista da SIC quando questionado sobre quantas assinaturas já havia recolhido).

Curioso que nunca tenha passado à fase de candidato. Tantas vezes pré-candidato e nunca escrutinado, acabou sempre com assinaturas inválidas. (Talvez porque assim o queria, apenas quer fazer acordar o povo com o seu humor.) Não como o Tino de Rãs, que submeteu candidatura, teve votos e por pouco não ganhou subvenções.

Manuel Vieira tem outra coisa curiosa: consegue mobilizar tantas assinaturas para uma candidatura que, à partida, é sátira.

Revelará isto a forma como as pessoas olham para as figuras políticas, desacreditadas e sem esperança de que apareçam líderes sólidos? (Com aqueles que nem ousamos dizer o nome)

No fim de contas, talvez a candidatura de Manuel João Vieira, séria ou satírica, seja apenas um espelho de um país que procura respostas, mas às vezes contenta-se com distrações.

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