Quem cuida de quem cuidou?

Quem cuida de quem cuidou?

Mais uma terça-feira e sento-me na minha escrivaninha — palavra antiga mas acolhedora — como se estivesse a conversar com vocês. No conforto da minha cadeira e em modo de proteção contra o frio que já se começa a notar, vale-me o aconchego da roupa mais quente e o copo de vinho que me acompanha nestas escritas. Por isso, ainda com o copo a meio, vamos ver o que vai sair hoje daqui.

Nestas alturas do ano quando se começa a sentir o frio a chegar, há sempre alguma pontinha de nostalgia no ar, vindo do frio que nos obriga a procurar aconchego, do fumo dos assadores de castanhas e do ar fresco que se sente ao respirar.

A acrescentar, uma dor de uma lesão antiga começa a dar de si e traz-me a memória dos meus pais a relatarem que “… o tempo vai mudar, sinto dor nas articulações…”. Faz-me pensar, também, que não caminho para novo, ao mesmo tempo que um acolhedor sentimento me invade ao aperceber-me que sou como eles, como se estivesse a entrar para uma espécie de clube dos adultos onde se dirigem a mim como “Sr. Lapa” e não “olá jovem”.nnão estaremos cá sempre, hoje é só uma lesão antiga mas sei que o futuro reserva mais umas quantas, até o corpo ceder. Estranho estar a pensar nisto com 44 anos e não quero criar uma depressão em quem está a ler este texto.

Apenas fico preocupado com quem cuidou de nós que em muitos casos não tem quem cuide deles. Eles foram quem nos aconchegou, quem nos ensinou e cuidou, quem nos deu a mão (ou uma palmada quando havia necessidade). Falo dos idosos. Da solidão que muitos enfrentam e por vezes esquecidos numa cidade com milhares de pessoas como se fossem invisíveis.

Uns lutaram pela pátria, outros tiveram as suas lutas que contribuíram para o nosso país, outros tinham lutas como cuidar de nós, desde o conselho de ancião que nunca queríamos ouvir ao preparar a marmita que levávamos para o trabalho onde, com orgulho, partilhávamos com os colegas que diziam “…quem me dera ter essa sorte…”.

A minha mãe ficou sozinha desde o dia em que o meu pai partiu. Ele era a “bengala” dela uma vez que tem mobilidade reduzida desde o AVC que teve há uns anos (escrevi já sobre isto). A nossa sorte enquanto família, é que somos muitos filhos e netos e conseguimos estar sempre presentes para a ajudar.

O avô da minha noiva, passou pelo mesmo. Doente oncológico, os familiares não podiam deixar os seus trabalhos e a luta para encontrar apoio domiciliário foi dura. Foi preciso recorrer a um cuidador privado mas não podia ser todos os dias, pois o orçamento não dava para um luxo desses.

Infelizmente, faleceu há um mês e aproveito para dedicar este texto ao “Sr. Capitão” como o chamávamos.

Outras famílias não têm essa sorte e quando tentam procurar ajudas, são batalhas sem sucesso. Os mecanismos do Estado e dos municípios são escassos, demoram tempo com filas de espera eternas para um utente ter apoio domiciliário e o recurso a privados não é para todos. Os valores que praticam não estão ao dispor de um reformado no nosso país. Eu próprio contactei várias entidades e foi sem sucesso…

E aqueles que nem família têm? Quem cuida deles? Por vezes bastava uma companhia, uma pessoa que lhes desse apoio nem que fosse uma vez por semana nas suas compras, a tomar um café e a conversar um pouco ou até os acompanhar ao médico.

Estamos a falhar como sociedade quando sabemos que este problema existe e o ignoramos e não estamos a fazer com que esta classe etária tenha a dignidade que merece. Não podemos contar sempre com os serviços de voluntariado e acredito que teríamos um país melhor se o nosso estado se preocupasse em providenciar a dignidade devida a quem já nos deu tanto e a quem já pagou tanto ao nosso país.

O que eu posso fazer…? Resta-me escrever, cuidar dos meus, como novo autarca lutar nas assembleias para tentar abrir os olhos aos “senhores das cadeiras” e fazer-lhes ver que isto é um problema e eles próprios “para lá caminham”.

Para terminar, deixo-vos esta mensagem:
Eu telefonei para a minha mãe hoje como faço todos os dias. Disse-me para me agasalhar e ter cuidado que de madrugada vem uma tempestade “…viu nas notícias” e que está bem ao ouvir a minha voz. Eu com 44 anos e ela ainda me diz para me agasalhar.

Faço um apelo a todos que estiverem a ler para falarem por um minuto aos vosso pais ou avós hoje ou amanhã. Perguntem se precisam de alguma coisa, se estão bem… e que os amam…

Rubrica semanal: Terças com Ricardo Lapa

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